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Tomei
muito na cabeça por falar na hora errada
Por: Henrique Queiroz - Foto: Arquivo
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Capitão do time
do Náutico, o zagueiro Batata não
pode reclamar do futebol. Ao contrário,
ele diz que é um sujeito feliz, bem equilibrado
e não vai se preocupar financeiramente
quando parar de jogar. Aos 32 anos, ele tem contrato
com o alvirrubro até 2007. Wanderley Gonçalves
Barbosa, fluminense de Barra do Piraí,
é casado com Cida e tem uma filhinha, Júlia,
de sete anos. Ele construiu uma carreira sólida
e conquistou vários títulos. No
Corinthians sagrou-se bicampeão brasileiro
(1998/99), paulista (1999 e 2001) mundial interclubes
em 2000, Rio-São Paulo e Copa do Brasil
de 2002. Também foi campeão paraense
pelo Remo (1993) e no Náutico o ano passado.
Experiente, passou pelo Monterrey e La Pieda,
ambos do México entre 1994 e 1995, defendeu
também o Ituano, o Internacional de Limeira-SP,
Atlético Mineiro e Brasiliense. Na entrevista
ao Jornal do Commercio, Batata diz que sabe defender
muito bem os seus interesses. Elogiou o amigo
Kuki. "É o ícone do Náutico."
Ao mesmo tempo, garantiu que aceita as críticas
e pensa muito antes de dar uma declaração.
"Não gosto de injustiças",
afirmou.
JC - Como se conquista
a liderança? Você conseguiu isso
no Náutico?
BATATA - É tratando todo mundo com
igualdade, com respeito, brincando na hora que
tem de brincar e falando sério no momento
certo. Mas acho que liderança é
natural de cada ser humano. Graças a Deus,
tenho a confiança dos meus companheiros.
Sou muito grato. Respeitando desde o garoto do
juniores até o mais velho, que é
o Kuki.
JC - Quando você chegou ao Náutico,
no início de 2004, sofreu muitas críticas,
disseram que era um time velho, com média
de idade muito alta. Como você se impôs?
A imprensa ajuda ou atrapalha?
BATATA - Acho que as críticas foram
válidas. Eu vinha de um período
sem jogar. Por sinal, a maioria dos jogadores
estava há quatro ou cinco meses sem jogar.
Mas eu absorvi da melhor maneira possível.
Eu agradeço muito. Agradeço também
a Guilherme (Guilherme Ferreira, preparador físico).
Ele me colocou numa condição excelente.
A gente ia treinar na praia, fora do dia-a-dia
do Náutico. Quem está dentro do
futebol sabe que é preciso conviver com
as críticas e os elogios. Cada ser humano
tem que saber absorver isso e guardar o que tem
de melhor.
JC - Você jogou no Remo e está
em Pernambuco há um ano meio. Você
é um jogador campeão do mundo e
bicampeão brasileiro. Os três grandes
clubes pernambucanos estão na Série
B. Qual a saída para o futebol pernambucano?
BATATA - Até a gente comenta bastante
no dia-a-dia que é um pecado Pernambuco
estar fora da Série A. Qualquer um dos
três, de preferência o Náutico,
se estivesse na Série A, Pernambuco estaria
bem servido. Acho que o planejamento é
bem feito. Ano passado estivemos prestes a subir,
mas por detalhes não conseguimos. Hoje
o profissionalismo melhorou. Os clubes melhoraram.
Não há mais a história de
estar no Sul e vir para o Nordeste só querendo
praia. Os dirigentes já têm outra
visão do jogador, procurando informações.
Isso ajuda muito na montagem de um time.
JC - Os juniores do Náutico conquistaram
um título inédito de supercampeão
pernambucano depois de 16 anos. Você foi
um dos jogadores que disseram não concordar
com o lançamento de alguns garotos como
ocorreu no início da temporada. Como se
deve aproveitar os meninos, como se deve lançá-los?
BATATA - Eu tenho uma visão. Deviam ter
lançado os meninos no ano passado, pois
o time principal estava muito bem. Eles poderiam
ir entrando aos poucos. Hoje, com certeza, o Náutico
já teria negociado quatro ou cinco. Nós,
este ano, começamos na pressão.
Os meninos assumiram uma responsabilidade para
a qual não estavam preparados. Fizeram
bons jogos, mas a gente sabia que uma hora iria
estourar. Isso aconteceu logo num clássico
contra o Sport. Mas os garotos estão mostrando
que têm qualidades. Diego (meia) vai para
Portugal (Rio Ave). Então é preciso
ter percepção. Roberto Cavalo (técnico
do time profissional) está lançando
aos poucos. Eles ainda não estão
acostumados com o profissional, nos juniores se
corre muito, mas no jogo profissional o choque
é diferente, é mais duro. Se tivessem
sido lançados no ano passado, a maioria
estaria deslanchando. Mas a divisão de
base tem grandes valores, estão despontando
Betinho, Thiago Laranjeira, o próprio Almir
Sergipe e o meia João Victor, que é
um excelente jogador. É preciso dar um
melhor suporte. Henrique também é
um excelente zagueiro. Tem clube aí que
não possui um zagueiro da qualidade dele.
JC - Batata, você não tem
medo de falar, sabe sempre o momento certo. Sempre
foi assim, desde jovem?
BATATA - Com a vida a gente aprende. A
gente apanha aqui e se levanta. Na minha vida
foi assim. Tomei muito na cabeça por falar
na hora errada. Com o passar do tempo, aprendi.
A primeira coisa que a gente deve fazer é
escutar. Falo para minha filha (Júlia)
ouvir primeiro para não tomar decisões
precipitadas. Então, prefiro escutar, analisar
e raciocinar bastante para não magoar ninguém,
não errar com ninguém. Não
gosto de ser injusto. Sou correto com todos para
os outros também serem corretos comigo.
JC - O grupo é experiente. Além
de você, tem Nílson, Kuki, Cleisson
e Lindomar, que chegou recentemente. Como vocês
fazem para administrar o grupo?.
BATATA - Em relação a muitas
coisas do grupo, Kuki não gosta de falar
muito. Ficamos eu e Nílson para conversar.
Mas tem Cleisson e Lindomar. Procuramos sempre
falar, dialogar. Roberto Cavalo dá abertura
para a gente. Não é um treinador
dono da verdade. Ele sempre aceita uma opinião.
Às vezes nos consulta. Na parte de diretoria,
para tratar de premiações ou salários
vamos eu e Nílson. Kuki fica por trás.
Ele não gosta muito de discutir.
JC - O baixinho faz muitos gols. Kuki se
irrita, critica o time quando não vai bem.
Algumas vezes, ele disse que faltou vergonha na
cara ao time em determinados jogos e derrotas.
Como você encara essa situação?
BATATA - Eu tinha até uma visão
diferente de Kuki. As pessoas falavam, diziam
que ele era assim. Outras já davam opiniões
diferentes. Para mim falou no Náutico,
o ícone é Kuki. Não adianta
outro jogador vir aqui, pode ser o nome que for,
pode ser o campeão que for, não
tem jeito. A gente tem que respeitar. O jogador
para ser ídolo tem que fazer mais gols
do que ele, jogar mais tempo no Náutico
do que ele. Comigo, com Nílson e com Cleisson
não há vaidade. Só porque
joguei no Corinthians, Cleisson no Atlético
Mineiro e Nílson no Vitória, e Lindomar
no Corinthians também, não vou chegar
e querer ser o cara. Kuki é o ídolo
alvirrubro. Respeitamos cada um. Não tem
essa coisa de olhar para quem está ganhando
mais. Isso não existe aqui no Náutico.
JC - Sobre essa questão de um jogador
ganhar mais do que outro. Não há
realmente um confronto de vaidade?
BATATA - No futebol nacional, diga um zagueiro
ou um volante que ganhe mais dinheiro do que um
atacante? Os atacantes sempre vão ganhar
mais. Não adianta chegar aqui e botar banca.
Eu já joguei num time (Corinthians) que
tinha Rincón, Marcelinho, Vampeta, Edílson
e Gamarra. Fora de campo ninguém se falava,
era vaidade demais. Mas chegava dentro de campo
e todo mundo pegava. Quando se quer unir, não
tem dinheiro no mundo que não faça
o cara correr. Há um ano e meio que estou
no Náutico e nunca houve esse problema.
Um dia falei: "Kuki está chateado
com a gente." Falei com ele. Mas ele pensou
que éramos nós que estávamos
chateados com ele. Ficou tudo certo e nos abraçamos.
JC - Você já tem um equilíbrio
financeiro? Está preparado para parar?
Muitos atletas não conseguem administrar
bem esse momento?
BATATA - A parte material é importante.
O que vier é sempre bom. É preciso
saber guardar para o futuro. Hoje em dia no futebol
quem ganhou dinheiro, ganhou. Quem ganhava em
1998, US$ 200 mil hoje está ganhando US$
30 mil ou US$ 40 mil o que é um bom dinheiro.
Daqui a dois anos, no futebol, vai se pagar por
produtividade. Tenho contrato com o Náutico
até 2007. Vou estar com 34 anos. Se eu
puder jogar aos 36 não terá problema.
Não vou sofrer tanto para parar. Já
venho me preparando há muito tempo. Além
disso, quando parar não quero trabalhar
no futebol, não quero ser treinador e nem
assistente. Esse problema não vou ter.
Posso até fazer um curso para trabalhar
na gerência de futebol. Trabalhar no campo
é muito desgastante.
JC - E também tem que curtir a vida
depois de encerrar a carreira.
BATATA - É verdade. Por isso, me
mudei para Pernambuco.
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