|
Agora
ficou o torcedor Nilson
Por: Kauê Diniz - Foto: NauticoNET
Quando chegou ao Náutico,
há um ano e meio, o Paredão estava
procurando se reerguer da...
Goleiro Nilson deseja pendurar as chuteiras no
Náutico e em seguida iniciar a carreira
de treinador no clube
Quando chegou ao Náutico,
há um ano e meio, o Paredão estava
procurando se reerguer da queda sofrida ao ser
dispensado do Santa Cruz. Tinha sentido na pele
como era ficar no chão. Coincidentemente,
foi o time, no qual a torcida por várias
vezes tinha hostilizado com atitudes racistas,
que lhe deu a mão. E ele aproveitou. É
tanto que deixou o clube como unanimidade na última
quarta-feira para concretizar o sonho de jogar
na Europa, mais precisamente no Vitória
de Guimarães, de Portugal. Nascido no Espírito
Santo, há 29 anos, Nilson começou
a jogar futebol no Vitória da Bahia, mas
foi em Pernambuco onde encontrou sua verdadeira
casa. Poucos atletas foram tão bem acolhidos
como ídolo por duas equipes rivais (Náutico
e Santa Cruz). Numa entrevista concedida à
reportagem da Folha de Pernambuco, o goleiro comenta
a passagem no futebol estadual, fala da sua identificação
com o Náutico e revela que deseja encerrar
a carreira de jogador no clube e na seqüência
iniciar a de treinador também no Timbu.
Como foi disputar um
jogo, contra o Ceará, sabendo que seria
o último pelo Náutico?
Olha, foi com o coração partido.
Ainda não era a certeza que seria o último
jogo, mas tinha 99% de chance. Foi criado um vinculo
muito forte com o Náutico. É um
momento feliz, mas também é complicado
deixar um lugar, o povo e a torcida que você
gosta. Mas é um momento que temos que separar
as coisas e deixar de lado toda essa emoção.
Meu objetivo maior era ter vencido o jogo, não
importa como fosse, para o Náutico estar
hoje aí no quarto lugar.
Na época que você defendia o Santa
Cruz, em vários jogos contra o Náutico,
a torcida alvirrubra se dirigiu a você com
atitudes racistas, imitando um macaco. Quem mudou,
a torcida do Náutico ou Nilson?
Acho que as duas coisas. A torcida mudou seu comportamento
e outra, eu era adversário, não
fazia parte do time do Náutico. E é
difícil você está jogando
um clássico, defendendo tudo e fazendo
uma cera, e esperar que a torcida adversária
fique te aplaudindo ou gritando teu nome. Mas,
no início, na primeira vez que aconteceu
aquilo, foi difícil de assimilar. Fiquei
realmente revoltado. Mas as coisas passam. Depois
você viu que era mais um respeito que a
torcida do Náutico sentia por mim, do que
uma questão de racismo. Fiquei até
meio preocupado de como seria minha recepção
aqui no Náutico quando cheguei. Tinha passado
muito tempo no Santa Cruz, além dos problemas
que tiveram. Como é que vou ser recebido?
Eu me lembro que cheguei ali na portaria, liguei
para o celular do Guga (Gustavo Rêgo, diretor
do Náutico) e disse 'vem me buscar aqui
porque eu não sei para onde eu vou'. Nunca
tinha entrado por aqui no Náutico. E aí
o Guga foi me receber e quando cheguei aqui no
salão da sede tinham uns 200 torcedores,
que começaram a bater palma e me desejar
boa sorte. Isso tudo me emocionou. Aí entrei
convicto na sala para assinar contrato com o Náutico.
Se a reação tivesse sido contrário
do torcedor, eu teria agradecido o convite mas
não aceitaria.
Todo garoto quando tem as primeiras chances
na equipe profissional já começa
a sonhar em jogar no exterior. Como você
se sente concretizando este sonho, principalmente
sendo um goleiro, que é mais difícil?
Quando você começa a idealizar isso,
e principalmente para mim que sou goleiro, você
idealiza mas ao mesmo tempo contesta. Você
fica falando pra si mesmo que não sai goleiro
para fora do País, é complicado,
mas ao mesmo tempo começa a gerar uma força
dentro de você para quebrar este paradigma.
Aí o Taffarel já foi, o Dida, Fernando
do Coritiba, Hélton. Então as portas
estão abertas para nós goleiros.
O Dida está fazendo um grande trabalho
no Milan, o Gomes está bem no PSV. Então
as portas estão sendo abertas em grandes
clubes. E eu também estou indo para um
grande clube.
O seu próximo clube, o Vitória
de Guimarães, tem tradição
em Portugal. No entanto, nunca conquistou o título
português. Sabendo disto, quais são
seus objetivos ao ir jogar na Europa?
Estando no Vitória, quero buscar títulos
para o Vitória. Mas, paralelamente, fazendo
um trabalho bom, para você ser lembrado
por outras equipes, tanto de Portugal, como da
Espanha, da França. Então espero
dar continuidade ao mesmo trabalho lá,
ter a mesma felicidade que tive aqui no Náutico,
porque certamente Deus vai olhar para mim mais
uma vez e vai me abençoar.
Do Nilson que chegou aqui em 1999 para defender
o Santa Cruz, ao que está saindo do Náutico
agora, teve muitas mudanças, como pessoa
e jogador?
Teve muitas. Eu cresci muito. Cheguei em 99 com
23 anos de idade. Era muito jovem e imaturo. Apesar
de ter experiência jogando, como homem eu
era um garoto. Vivia profissionalmente errado.
Não no sentido de trabalho, mas de conduta.
Gostava muito da noite, de festa, de beber, essas
coisas. Isso não combina muito com a gente
atleta. Eu entendo que isso não é
uma postura legal para um atleta. Isso acaba atingindo
tua imagem como pessoa porque tua imagem fica
sendo de uma pessoa que gosta da noite. Não
é legal vincular isso a tua imagem. Eu
sei que as pessoas sabiam que eu gostava de sair
à noite e beber. Por outro lado, eu cumpria
meu papel nos jogos. E eu era muito nervoso dentro
de campo, reclamava às vezes em excesso.
E com a experiência você vai crescendo
e amadurecendo. Deus foi tão bom para mim
que no momento certo e oportuno da minha vida,
quando estou equilibrado em todos os sentidos
da minha vida, estou indo para uma Europa, onde
requer um profissionalismo total. Eu acho que
se tivesse ido mais cedo eu teria jogado minha
oportunidade que sonhei fora.
Quando aconteceu esta mudança de personalidade
que você se referiu?
Às vezes, as situações se
apresentam num momento contrárias para
a gente. Com o passar do tempo, você vê
que aquela situação foi criada para
que você pudesse reagir positivamente, crescendo
e amadurecendo. E minha saída do Santa
Cruz foi um momento glorioso de amadurecimento
e crescimento como homem e como profissional.
Foi aí o divisor de águas da minha
vida. Tanto que eu vim para o Náutico e
graças a Deus fui muito feliz e bem-sucedido
em todos os aspectos. Já prometi que a
última camisa de clube de futebol que vou
vestir é a do Náutico.
Qual a diferença entre sua passagem
pelo Náutico e pelo Santa Cruz?
No Santa Cruz também tive um grande momento,
fui abraçado calorosamente pelo torcedor
e fui feliz lá também. Não
fui campeão pernambucano porque toda vez
que joguei nosso time não tinha condições
de ser campeão, em 2000 e 2002. Só
joguei o primeiro turno de 2003 e fomos campeões,
depois eu sai. Em 99, fizemos uma grande façanha
que foi voltar a Primeira Divisão com um
time que dos oito classificados era o que tinha
menos condições de seguir adiante
e muito menos subir, mas fomos lá e conseguimos,
apesar de ninguém acreditar. Foi um marco,
algo muito importante na minha carreira. Só
que depois aconteceu tudo aquilo. Foi uma coisa
que marcou negativamente, que me chateou muito
e me entristeceu muito com o clube. Não
com os torcedores, que até hoje pelas ruas
vêm e me abraçam e cumprimentam.
Eles sabem que não fui eu quem pediu para
sair do Santa Cruz. Me tiraram de lá. Eu
que fui rejeitado. Mas tudo isso é superado.
Aí encontrei um clube maravilhoso, uma
grande torcida e um ambiente muito bom que foi
o Náutico, onde tive um ano e meio de muita
alegria, sucesso e paz. Encontrei aqui pessoas
sérias, partindo do presidente que é
o cabeça, passando pelo Paulo Pontes, Rubinho,
Sérgio Lins, Guga, Mauricio Cardoso, Américo
Pereira, Eduardo Araújo, Sérgio
Aquino, André Campos. Enfim, o restante
do colegiado que no momento não estou lembrando
o nome. São pessoas de muita seriedade.
A prova é que agora, no momento da minha
saída, eu tinha dinheiro para receber e
não foi colocado empecilhos. O presidente
falou 'o que é seu é seu e já
vai ser descontado no dinheiro que vamos receber
e ponto final'. Então, isso foi um reconhecimento
do meu trabalho e do meu comprometimento com o
clube.
Você defende uma chance para Rodolpho
com seu substituto?
Não vejo outro para jogar no lugar do Rodolpho.
É o momento dele, de se acreditar no Rodolpho
porque tem um grande potencial. Espero que ele
tenha a oportunidade. Não de um, dois ou
três jogos. É de confiar nele porque
tenho certeza que ele não vai comprometer
em nada no trabalho. Pelo contrário, vai
ajudar e muito. E eu vou estar torcendo para que
ele faça igual ou melhor do que eu.
Como você qualifica as chances do Náutico
subir este ano para a Primeira Divisão?
Setenta por cento. Acho que o principal é
você se classificar. Não importa
se em primeiro ou o oitavo. Depois que chegar
ao quadrangular, tudo é japonês.
Chegou entre os oito você vai brigar.
Qual é a melhor lembrança que
você leva de Pernambuco, incluindo as passagens
pelo Náutico e Santa Cruz?
Em 99, o acesso à Primeira Divisão
pelo Santa Cruz. O carinho da torcida do Santa
Cruz comigo. E, sem sombra de dúvidas,
o ano e meio que passei no Náutico. Foi
fantástico mesmo. Momento ímpar
e diferenciado na minha vida. E foi o clube que
me projetou para a Europa. Sempre vai existir
essa gratidão, carinho e respeito. Certamente,
estarei lá em Portugal ligando sempre para
saber os resultados do Náutico, como o
time está. Podem ter certeza que está
indo embora um atleta, mas de longe vai ter um
torcedor. Agora ficou o torcedor Nilson.
Você construiu uma história em
Pernambuco. Foi ídolo do Santa Cruz e do
Náutico, e se casou com uma pernambucana.
Isso é um indício que você
deve encerrar a carreira aqui e depois permanecer
residindo em Recife?
Fixar residência com certeza. Gosto muito
da cidade, só se Deus mudar os planos.
Mas falando do nosso pensamento, meu e da minha
esposa, é morar aqui, termos os nossos
negócios, encerrar minha carreira e iniciar
outra carreira de treinador também aqui.
Vou aproveitar porque na Europa só joga
uma vez na semana. Então, vou me programar
mais para frente. Espero ainda passar uns quatro
ou cinco anos na Europa. E aí quando eu
achar que é meu último ano lá,
vou fazer um curso de treinador. Então
vou estar mais respaldado. Jogo mais um ano, continuo
evoluindo como treinador em minha cabeça.
E, no ano seguinte, quem sabe eu termine no Náutico
como jogador e já sou o treinador do Náutico
na próxima temporada. Esse vai ser o contrato
que vou propor ao Náutico. Alguns diretores
já sabem.
|